7. MEDICINA E BEM-ESTAR 31.10.12

1. SETE DIAS EM OUTRO MUNDO
2. MAIS LONGE DAS CIRURGIAS

1. SETE DIAS EM OUTRO MUNDO
Livro de neurocirurgio americano sobre o que viu e sentiu durante a semana em que esteve em coma reacende interesse pela chamada experincia de quase morte
Mnica Tarantino

VIAGEM - O mdico Eben afirma ter estado consciente e viajado para uma outra dimenso do universo 

Quando recuperam a conscincia depois de sobreviver a traumas graves, algumas pessoas relatam o que teriam vivenciado, como visitas a lugares desconhecidos. Chamadas de experincias de quase morte (EQM), essas situaes so estudadas por cientistas interessados nas relaes entre o crebro e a espiritualidade e na compreenso da conscincia.  um campo polmico, no qual h poucas certezas e muitas hipteses. Na ltima semana, chegou s livrarias americanas um relato nico sobre o tema, escrito na primeira pessoa pelo neurocirurgio Eben Alexander III, do Brigham & Women Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. O livro se chama Proof of Heaven: A Neurosurgeons Journey into the Afterlife (Prova do paraso: a jornada de um neurocirurgio  vida aps a morte, em traduo livre).  a histria de um mdico que por mais de 25 anos manteve o ceticismo frente aos testemunhos de EQM de seus pacientes. H quatro anos, porm, o prprio Alexander passou por uma experincia desse tipo, o que abalou seriamente as suas convices sobre a natureza dessas vivncias. No acreditava nesse fenmeno. Para mim, sempre houve boas explicaes cientficas para essas viagens fora do corpo descritas por pessoas que haviam escapado da morte, diz o mdico.

Na obra, que o mdico considera tambm uma resposta  descrena polida dos colegas que ouviram sua histria, Alexander detalha a odisseia transcendental que experimentou durante a semana em que esteve em coma profundo por causa de uma forma rara de meningite bacteriana. Em estado vegetativo e com poucas chances de se recuperar, ele abriu os olhos no stimo dia. Nesse perodo, conta que viu e sentiu coisas estranhas. Enquanto meu corpo estava em coma, minha conscincia viajou para outra dimenso do universo que eu nunca sonhei que existisse, diz.  um novo mundo onde somos muito mais do que nossos crebros e corpos e a morte no  o fim da conscincia, afirma. Perplexo diante do que viveu, ele se questiona: Os principais argumentos contra as EQM sugerem que elas so resultado do mau funcionamento do crtex (regio do crebro). No meu caso, ele no estava funcionando. Isso est documentado por exames neurolgicos. Disponvel tambm em verso eletrnica, o livro de Alexander ser lanado no Brasil em abril de 2013 pela Editora Sextante. 

Como outras pessoas que tiveram uma EQM, Alexander levou meses para comear a entender o que lhe sucedera. Foi assim tambm com o advogado Solon Michalski, 65 anos, de Petrpolis, no Rio de Janeiro. Aos 21 anos, ele ficou em coma por dez dias aps um acidente de carro. Eu via meu corpo na cama do hospital e ouvia as pessoas chorando. Sentia uma sensao de alvio crescente do desconforto que era estar preso a um corpo machucado, conta. Revi tambm as mancadas que dei na vida e fiquei muito envergonhado antes de recuperar a conscincia e abrir os olhos, conta ele, que teve depois outra EQM. Foi durante uma cirurgia na perna. Eu via luzes da sala de operao de um ngulo que me deu a impresso de estar colado no teto e percebi que os mdicos estavam tentando me acordar, relata. Por mais de quatro dcadas, ele meditou sobre essas sensaes, que acabaram mudando sua vida. Sou uma pessoa melhor. Li muito e entendi que somos parte de um tecido universal que est sempre se ajustando, diz Michalski.

No Brasil, as EQM sero em breve investigadas com critrios cientficos. Um grupo de professores da Universidade Federal de Juiz de Fora, ligado s redes internacionais de estudo sobre o tema, est prestes a dar incio a um estudo para mapear casos de quase morte em pacientes que tiveram parada cardaca nos hospitais da cidade. Sero colocadas prateleiras acima dos leitos das UTIs e, em cima delas, figuras impressas de fcil identificao. Tais imagens ficam a 30 centmetros do teto, onde s podem ser vistas por algum que esteja flutuando, explica o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Ncleo de Espiritualidade e Sade da universidade e autor de livros e artigos sobre espiritualidade e sade. Os pacientes sero tambm submetidos a testes para descartar doenas neurolgicas ou transtornos psiquitricos.  


2. MAIS LONGE DAS CIRURGIAS
Novos tratamentos e tcnicas de reabilitao Impedem que pacientes com dor nas costas sejam operados sem necessidade
Monique Oliveira 

MOBILIDADE - Marcelo da Silva no precisou fazer cirurgia para hrnia de disco depois de diagnstico mais preciso
 
Cerca de 85% das pessoas passaro por algum tipo de dor reincidente nas costas em algum momento da vida. No Brasil, segundo o Ministrio da Sade, trs de cada dez brasileiros apresentam problemas crnicos na regio. Geralmente oriunda de uma inflamao gerada por m postura ou esforo repetitivo, a maioria dessas dores pode ser revertida, desde que eliminada sua causa, sem que seja preciso uma interveno cirrgica. Apesar disso, no so raros os casos de pacientes que recebem a indicao para operaes desnecessrias.
 
Para mudar essa realidade, o Jornal Americano de Radiologia publicou novas diretrizes segundo as quais o primeiro passo  a investigao meticulosa da origem da dor. A lombalgia (dor na regio lombar), por exemplo, deve ser dividida por tipo de causa: no especfica (infeco, toro da coluna, doenas inflamatrias) ou especfica (na ocorrncia de um estreitamento anormal do canal espinhal lombar ou mais frequentemente na hrnia de disco).

Tambm a fisioterapia e a reeducao postural, de acordo com as diretrizes, fazem diferena contra as dores. Centros de excelncia no Pas apresentam resultados animadores que comprovam a eficcia da terapia. Em So Paulo, o Projeto Coluna, do Hospital Albert Einstein, j tirou da fila da cirurgia 72% dos pacientes que l chegaram com indicao para a interveno. Avaliamos a postura do indivduo de forma minuciosa, diz a fisioterapeuta Marlia Diniz, integrante do projeto. O Hospital Nove de Julho, tambm em So Paulo, mantm um programa que rene de fisioterapeutas a neurologistas para identificar a causa da dor e depois trat-la. Vrios profissionais que possam analisar o problema so fundamentais, diz Cludio Correa, coordenador do Centro de Dor do hospital. Na Inglaterra, o Instituto Nacional de Sade e Excelncia Clnica usa ainda a terapia cognitivo-comportamental  busca modificar padres de pensamentos e comportamentos associados  dor crnica  para aliviar tenses emocionais que agravam o problema. 

Um dos motivos pelos quais tratamentos desse gnero mostram-se na maioria dos casos mais eficazes do que as cirurgias  o fato de que a dor tem mecanismos complexos. Por isso, geralmente no  solucionada com apenas uma interveno. Pode ser que o paciente at tenha uma hrnia de disco, mas ela pode no ser a causa da sua dor, diz Mario Ferretti Filho, do Albert Einstein. O analista de banco de dados Marcelo da Silva, 31 anos, por exemplo, tinha indicao para cirurgia de hrnia de disco, mas aps ter seu problema mais bem avaliado e se submeter ao programa de reabilitao, viu-se livre da dor que o incomodou por anos. Segui o programa com disciplina, diz. Outra razo apontada  que, embora a maioria das pessoas apresente alteraes em exames de imagem, elas nem sempre representam um prejuzo ao paciente ou necessidade de uma operao. 

Mesmo para os casos em que a dor  to grave que impede maior adeso  fisioterapia, a medicina disponibiliza procedimentos minimamente invasivos guiados por aparelhos de imagem em que analgsicos e anti-inflamatrios so injetados no foco da dor por meio de uma agulha. Essa analgesia  mais eficiente e pode durar meses, explica o mdico Luciano Miller, diretor da Colunar, clnica especializada em cirurgias minimamente invasivas da coluna vertebral, em So Paulo. O paciente pode, assim, dedicar tempo ao tratamento convencional sem sentir dor, completa.

Para quem necessita mesmo se submeter  cirurgia, h mtodos menos agressivos, como o que usa aparelhos com uma microcmera na ponta que conseguem excepcional visualizao durante o tratamento de hrnia de disco, com incises que no chegam a um centmetro. Eles resultam em menos risco e em recuperaes mais rpidas. Antes, para chegar at a coluna as incises eram grandes, lesionava-se muito o tecido, o que dificultava a recuperao. Essas novas tcnicas esto revolucionando a cirurgia para hrnia de disco, diz Miller. 

L fora, h novos caminhos em estudo. Cientistas da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, mostraram que o oznio pode aliviar a presso dos discos vertebrais sobre as estruturas nervosas que os envolvem, processo envolvido na dor. Na pesquisa, com uma nica injeo de oznio, 37% dos pacientes relataram estar livre de dor por seis meses aps a aplicao. Na Universidade de Brighman, nos Eua, estuda-se um disco artificial flexvel, que permite o movimento mais natural das vrtebras. Em outra linha, diversos centros de pesquisa do mundo realizam estudos com clulas-tronco, fatores de crescimento e terapia gnica para aplicar em discos doentes e com isso reverter o processo degenerativo. Mas ainda no h aplicabilidade em humanos.

